19/08/2016

O fim só deve ser mesmo quando é o fim…

  
Disse: “Contra minha vontade tenho de informar que não contem mais comigo. Não há mais esperanças. Não vou melhorar”. Silêncio. Engoli em seco. “Tenho 70 anos. Tu não entendes porque tens outra idade”. Olhou para o vago da cadeira de rodas que não permitia ver a paisagem de um quarto andar para o jardim. . . “Tem oitenta e seis anos…” “oitenta e seis? Replicou surpresa. Não devia ter-lhe dito.
Também não devia ter-lhe dito que o canal que mais ouvia era a Mezzo, depois de lhe perguntar em que entretinha os dias. Mas agora a memória traia-a e a empregada estava farta, não tencionava ter mais sinfonias nem orquestras a alto volume. Era assim a surdez. Não devia ter-lhe dito que aquele era o seu telemóvel, que eu tinha dormido ali na sua casa por uns tempos, que ela se levantava todos os dias às sete da manhã antes de mim… excepto este Verão que acordava de noite e não atinava com a porta da casa de banho e viemos a saber que ficava mais de duas horas para dar com a volta para a cama. Isso tinha sido este Verão. É necessário ter cuidado com o que se diz a quem já não sabe situar uma pessoa ao certo na sua vida, quando essa informação, não vai mudar nada e a confrontam com a sua fraqueza. Deve doer muito e alia-se à sua depressão e desesperança. Agora parecia-me pairar à sua volta uma espécie de sanguessugas a impedir os caminhos e as horas, a disporem da ordem dos seus móveis, das suas contas bancárias e de tudo o que era seu. Não pude parar para pensar se é necessário se é desejável, porque não consigo aceitar esse fim. Aquela cadeira de rodas que me parecia uma inimiga que lhe tirara a mobilidade, admirou-me  que a tratasse como uma verdadeira amiga que permitia deslocar-se pela casa. “Há que ter esperança, não se diz que a esperança é… ia dizer “a última a morrer”, mas detive-me tive medo que a esperança se ficasse a rir… "Tem rezado?" Era usual ela rezar um rosário todas as noites. "Sim, tenho rezado". Quando o seu marido estava hospitalizado em fase terminal eu ajeitava-lhe a almofada, os pés e a manta. Um dia ele disse-me que se ficasse bom ainda íamos fazer um cruzeiro todos juntos, e não é que eu acreditei? Mas os ternos agradecimentos, das minhas parcas amabilidades tiveram como resposta um dia:  “deixem-me morrer em paz”. Ele já não abria os olhos para saber quem o incomodava e eu queria que abrisse os olhos para que voltasse a nós. Não sei porque lhe fizeram desaparecer o aparelho auditivo e os óculos. Eu fui a única a reclama-los em vão, pois todos se conformaram antes do tempo com o fim. Mas o fim é só mesmo quando é o fim, o fim não deve ser um fim antecipado, e ele nessa altura queria o seu aparelho, e os seus óculos e ainda via a tv que eu virava para ele. Mas não, ele estava condenado pelos deuses homens a desligar-se do mundo antes de se desligar dele, e eu nada pude fazer. Parecia-me que pairam por ali ladrões de vidas, mas não eram de velhos, não, era de almas ainda jovens condenadas pelo corpo e pela idade… Também não lhe falei do marido. Que estava muito doente, com a saúde num estado deplorável disse-me e eu limitei-me a ocultar o meu sofrimento, ela achava, e talvez com razão que eu não podia entender. Despedi-me duas horas depois para ir trabalhar, mas percebi o sacrifício que fazia para receber visitas. Vim a pensar, que eu não tinha a sua idade, mas se a tivesse o que mudaria na minha forma de pensar? Então baixou sobre mim uma nuvem escura. Que esperança se pode ter quando se tem 86 anos? Quando o único elemento da família está tão mal ou pior do que ela? Seria uma esperança de mais um dia, mais uma semana, mais um ano? Faria diferença? A esperança não era uma verdadeira luz ao fundo do túnel era uma pequena ficção. Mas enquanto se vive, está-se vivo. Não lhe vou dizer que ela tem razão, mas ainda assim penso que o fim só deve ser mesmo quando é o fim…


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